A dimensão das ameaças que se
apresentam no horizonte do professorado da rede pública estadual só pode ser
atestada com uma leitura (e reflexão) mais detida da chamada certificação do
magistério.
A certificação não é somente uma
forma de estimular a meritocracia, como quer fazer crer a SEEDUC aos incautos,
mas um instrumento que já divide opiniões e – principalmente - uma armadilha do
governo para minar a credibilidade dos docentes junto à opinião pública. Eu
explico.
Lembram quando foi veiculada a
proposta de pagamento do auxílio cultura (duas parcelas semestrais no valor de
R$500,00 cada uma delas)? E que já havia a firme disposição em utilizar o tal
auxílio para uma finalidade que não aquela a que se tinha originalmente
proposto a SEEDUC ? Pois bem, assim procedeu a maioria dos docentes da rede. Ou
seja, a maioria não utilizou o recurso na aquisição exclusiva da proposta de
cultura sugerida pela secretaria.
Vejam bem, não estamos fazendo
aqui uma crítica negativa à ação daqueles que utilizaram o recurso para outros
fins que não o esperado pela SEEDUC; pois no entender do blog, naquele momento
(assim como hoje) a demanda do professorado da rede era de reajuste real (no
salário-base), já que a remuneração inicial de um professor 16h semanais na
época (utilizando dados do D.O. de 30/AGO/2011) era de R$765,66. Ou seja,
receber um “auxílio” que representava quase 70% do seu salário em um contexto
de reivindicação constante, onde o órgão gestor alegava falta de recursos para
um reajuste real no piso; mas que se dispunha a pagar um auxílio que deveria
ser gasto obrigatoriamente na aquisição de cultura era –no mínimo – uma
provocação.
E na verdade era mesmo uma
provocação ! A secretaria desejou mexer com os brios da classe, pois sabia da
afronta que fazia, e conseguiu. Mas com qual intenção ? Conforme expressado
acima, desacreditar o professor perante a opinião pública através da mídia; já
que a SEEDUC sabia que uma vez creditado o dinheiro, o professor iria atender a
outro conceito de cultura – no caso, utilizando uma noção bem mais ampla,
cultura PODE ser entendida como um senso comum ou um conjunto de ideias que
geram comportamentos baseados na tradição e na vivência de um grupo.
Foi esse conceito de cultura que
prevaleceu – porque era o mais coerente -, mas serviu como um “tiro no pé”;
pois a lógica do senso comum estava baseada na ideia de satisfazer as
necessidades imediatas do grupo, e quais eram essas necessidades? Adquirir
alimentos; pagar contas e somente após satisfeitas as duas primeiras, buscar-se-ia
satisfazer a proposta da SEEDUC.
Cabe lembrar que o fato do
auxílio estar atrelado ao cartão de débito institucional não foi à toa; pois
atendeu o propósito de rastrear com mais facilidade os gastos (para depois
jogar na mídia) e “pintar” os professores como inconsequentes e irresponsáveis
por utilizarem um cartão institucional para gastos particulares.
Off Tópic : Outra funcionalidade
do uso do cartão de débito foi ter permitido ao banco que na época detinha a
conta do funcionalismo operar uma quantia significativa, já que em 2012 o tal
banco perderia a conta do funcionalismo.
Então vamos entender isso ?
Sabemos que os bancos sobrevivem
de operações com o dinheiro alheio (e sendo tais operações legais e não
causando dano ao correntista (físico/jurídico) estão cobertas), então
imaginemos R$500,00 multiplicados por 50 mil (docentes em regência), teremos
R$25 milhões, isto sem contar o custo cobrado pela confecção dos tais cartões
que só foram utilizados uma única vez. Logo, o banco operou R$25 milhões e
todos sabem que o dinheiro é primeiro creditado no banco com certa antecedência,
e é justamente nesse período que o dinheiro dos outros vira dinheiro do banco.
Enfim, vocês sabem como as coisas funcionam.
Então, se utilizando disso a
secretaria só esperou a confirmação de que a grande maioria dos professores
havia utilizado o auxílio de forma diversa daquela por ela proposto para lançar
uma campanha contra o professor. Campanha de descrédito que (novamente) quer deflagrar,
só que desta vez o foco é a capacidade intelectual do professorado, e não mais
a sua “falta de compromisso com seu “refinamento” cultural”.
Assim, seguindo a linha utilizada
anteriormente, a secretaria propõe que o professorado se submeta a avaliação de
certificação; mas já prevendo uma forte reação ela estabeleceu critérios para enquadrar
os docentes que pretendem “obter o direito de ser avaliado”. Ou seja, o
professor deve cumprir uma série de requisitos para que lhe seja permitido
fazer a prova, entre os quais estão : lançamento de notas; aplicação do currículo
mínimo; reduzido número de faltas; participar das avaliações externas; análise
curricular e de competências.
Portanto para fazer jus ao bônus meritocrático,
definido pela certificação, o professor deve estar “comendo na mão da direção”,
sendo dócil e subserviente. De cara nota-se que docentes com um senso mais
crítico sobre a GIDE e outras ferramentas da gestão educacional estarão fora da
lista porque, normalmente, tendem ao embate quando as direções entoam o mantra dos
índices imposto pela SEEDUC.
Continuando o raciocínio, a fim
de se resguardar de um eventual fiasco, a secretaria limitou o acesso e se – ainda
assim – os professores se submeterem a certificação; mas propuserem um boicote
(zerar toda a prova), a secretaria poderá utilizar o artifício para lançar na
mídia como se os professores não estivessem em condições de estar lecionando
por não dominarem o mínimo necessário para tal atividade. Revertendo o quadro
em seu favor, tal como ocorreu com o governo de SP e os docentes temporários.
Mas, o pior cenário vislumbrado
está a seguir.
Como a SEEDUC embarcou de cabeça
na estratégia filosófica do capitão Nascimento (“pede pra sair”), e a tática
utilizada para efetivar tal estratégia é a publicação em D.O. das normas e
determinações da secretaria sobre todo e qualquer procedimento do professor
dentro das famosas “Ações de Valorização do Magistério”.
Conforme já abordamos aqui, as
publicações em D.O. visam enquadrar o professor - como servidor público que é -
abrindo assim o precedente para um crescendo em responsabilização (advertência;
suspensão; inquérito e afastamento) ao docente pelo eventual descumprimento de
determinação administrativa superior devidamente publicada na imprensa oficial.
Lembremo-nos da recente
publicação da cartilha de obrigações que foi “ofertada” aos professores no
início do ano letivo.





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