domingo, 14 de outubro de 2012

Reencontro; Revisitações; Apropriações e girando pelo Mundo

Olá pessoal,


Recentemente conversando com um amigo que reencontrei (e que eu não via desde a graduação) ouvi que ele tem, pasmem, quatro turmas de fundamental (9ºano) com uma média de 46 alunos frequentando. Loucura!!!  Detalhe, nos primeiros bimestres o número da média era de 53 frequentando !!!!  Há ainda um agravante, uma das turma é tida como a turma mais problemática da unidade escolar onde ele trabalha (que não irei citar aqui por questões óbvias, é claro).

O cara está quase desenvolvendo Burnout às segundas-feiras quando, segundo ele, “vai ao coliseu”. KKKKKKKKKKKkk !!!!!!!!!!.......

Peço desculpas pela onomatopéia acima e tão pouco estou tripudiando a condição do amigo; mas a face dele perdeu todo o brilho quando ele fez referência a tal turma (ou  coliseu romano). Outra coisa, eu ri, e muito, quando ele falou; logo, não estou de trairagem com ele. Inclusive eu disse que escreveria um post inspirado no seu problema. Então, ei-lo.
A superlotação das salas – como já afirmei em outras oportunidades – veda, por exemplo, a possibilidade de uma (re)arrumação do posicionamento das cadeiras dos alunos em sala; o que prejudica o desenvolvimento de atividades que requerem a criação de grupos de discussão, por exemplo. Salas lotadas também aumentam, exponencialmente, os casos de dispersão entre os alunos, o que obriga ao professor gastar muito mais tempo interferindo em situações conflituosas (causadas pela dispersão) do que mediando a construção do conhecimento. Enfim, a superlotação é contraproducente e antipedagógica; mas favorece – em muito – o atingimento dos índices e criação de estatísticas.
Uma das saídas encontradas pelos professores é, uma vez definidos os grupos, permitir que os alunos saiam de sala e ocupem a biblioteca (e/ou áreas disponíveis no interior da UE), a fim de reduzir a pressão em sala. É uma medida extrema que o professor lança mão a fim de remediar a opção da rede pelo quantitativo (no quesito limite de alunos por sala) quando o correto seria optar pelo qualitativo (nº de alunos por sala em 3 dezenas). Sabemos que o professor deve estar orientando; incentivando e colaborando com os grupos durante a realização da atividade; no entanto, quando os grupos não estão reunidos somente na sala de aula (local essencial) isso força o professor a “dividir-se” na empreitada de dar o suporte os grupos de trabalho, e dividindo-se incorre no risco de não alcançar seus objetivos (que é fornecer orientação e incentivo aos seus alunos).


Vejam bem, não advogo aqui um cenário ideal próprio de países com as melhores colocações no ranking mundial do desenvolvimento educacional mundial, tais como Finlândia, Coréia do Sul e Canadá (sem ter que citar outros); mas entendo que nosso país e, principalmente, o Estado do Rio de Janeiro possui condições de proporcionar um cenário possível, que chamo de CNTP’s da educação pública.

A fim de explicar o que são as CNTP’s  da educação, faço uma apropriação do conceito da química para o ensino do comportamento dos gases, que conhecemos como Condições Normais de Temperatura e Pressão (CNTP). “pegamos” essa ideia  e transmutamos (mais uma vez uma apropriação, só que desta vez da ideia de Lavoisier, que visa conservação, aqui no texto, do sentido de condição) em Condições Normais para o Trabalho do Professor (CNTP’s).  Onde entende-se que para uma maior e melhor fluidez do processo ensino-aprendizagem, na direção favorável ao desenvolvimento  dos discentes e da atuação dos docentes, é essencial que as salas de aula possuam um número máximo de até 3 dezenas de alunos (30 alunos no limite do tolerável; pois 31 já configuraria a quebra de CNTP’s).

As CNTP’s da educação são um “conceito guarda-chuva” que não só identifica os pontos que impedem que a educação pública (no nosso caso específico, a estadual) atinja a plena funcionalidade, ou ao menos uma satisfatória funcionalidade, desde o nível micro até o macro; como também indica ações com potencial mitigador sobre esses mesmos pontos de impedimento, também nos mesmos níveis.

Faço algumas ressalvas no que tange aos problemas e soluções típicas de gestão especificamente no macro; pois aí, nestes casos, a Teoria Crítica Marxista (uma revisitação) embasa de forma mais analítica, acadêmica, científica e histórica aquilo que o pragmatismo do professorado vem há tempos anunciando a sociedade. Pois sem tal embasamento prevaleceria o tecnicismo dos burocratas, que tende a ignorar que a rede é composta por pessoas (professores e alunos) e não somente por números que são facilmente manipuláveis em relatórios estatísticos.

Ainda, é preocupante e lastimável que nos tempos atuais mereçam mais atenção os “especialistas em educação” (detentores de currículos dourados que pululam nas mídias bombardeando a sociedade com “seus pareceres embasados”) do que aqueles que estão na atividade fim, os docentes.  O resultado dessa situação favorece a criação de um quadro onde a figura do professor é exposta à depreciação, ao desrespeito e a estigmas culpabilizantes pelo baixo rendimento dos alunos e - consequentemente - mau desempenho da rede nas avaliações externas. Enfim, um quadro de violência contra a moral dos docentes.

“Mea culpa” ???  Fazemos todas. Pois é claro que uma rede onde existem mais de 55 mil docentes em sala de aula, seria leviano defender que os professores estão isentos. No entanto, creditar aos docentes a quase totalidade da responsabilidade pelo fracasso ou o sucesso da rede é, no mínimo, uma análise superficial, primária, imediatista e desprovida da seriedade, que é tão necessária para se pensar (e dialogar sobre) a educação pública estadual.

Provável É que a nossa mea culpa esteja, justamente, em estar abandonando valores fundamentais da função social da atividade docente.

A rede É plural, e justamente por isso que toda essa unicidade imposta (que já cooptou diretores, coordenadores e está fazendo o mesmo com os professores) é temerosa. Reafirmo, a rede É plural. E apesar dos problemas serem globais (no sentindo da totalidade da rede), isto não invalida soluções locais; pois cada UE é singular e cada regional tem suas particularidades. Portanto mais uma vez faço o reforço da necessidade de uma maior autonomia da escola na busca de soluções que possam, inclusive, ser partilhadas entre as unidades a fim de “quebrar” com o Paradigma da Verticalidade, de onde as soluções chegam de cima para baixo - com todas as implicações das leis da física  V =v0+a.t  (outra apropriação) – descendo direto pelas goelas dos docentes.

P.S.:  Os docentes de Portugal já iniciaram um movimento organizado. Veja o link abaixo.


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