Olá pessoal,
Recentemente conversando com um
amigo que reencontrei (e que eu não via desde a graduação) ouvi que ele tem, pasmem, quatro
turmas de fundamental (9ºano) com uma média de 46 alunos frequentando. Loucura!!!
Detalhe, nos primeiros bimestres o
número da média era de 53 frequentando !!!! Há ainda um agravante,
uma das turma é tida como a turma mais problemática da unidade escolar onde ele trabalha (que não irei citar aqui por questões óbvias, é claro).
O cara está quase desenvolvendo Burnout
às segundas-feiras quando, segundo ele, “vai ao coliseu”. KKKKKKKKKKKkk
!!!!!!!!!!.......
Peço desculpas pela onomatopéia acima
e tão pouco estou tripudiando a condição do amigo; mas a face dele perdeu todo
o brilho quando ele fez referência a tal turma (ou coliseu romano). Outra coisa, eu ri, e muito,
quando ele falou; logo, não estou de trairagem com ele. Inclusive eu disse que
escreveria um post inspirado no seu problema. Então, ei-lo.
A superlotação das salas – como
já afirmei em outras oportunidades – veda, por exemplo, a possibilidade de uma
(re)arrumação do posicionamento das cadeiras dos alunos em sala; o que
prejudica o desenvolvimento de atividades que requerem a criação de grupos de
discussão, por exemplo. Salas lotadas também aumentam, exponencialmente, os
casos de dispersão entre os alunos, o que obriga ao professor gastar muito mais
tempo interferindo em situações conflituosas (causadas pela dispersão) do que
mediando a construção do conhecimento. Enfim, a superlotação é contraproducente e
antipedagógica; mas favorece – em muito – o atingimento dos índices e criação
de estatísticas.
Uma das saídas encontradas pelos
professores é, uma vez definidos os grupos, permitir que os alunos saiam de
sala e ocupem a biblioteca (e/ou áreas disponíveis no interior da UE), a fim de
reduzir a pressão em sala. É uma medida extrema que o professor lança mão a fim
de remediar a opção da rede pelo quantitativo (no quesito limite de alunos por
sala) quando o correto seria optar pelo qualitativo (nº de alunos por sala em 3
dezenas). Sabemos que o professor deve estar orientando; incentivando e
colaborando com os grupos durante a realização da atividade; no entanto, quando
os grupos não estão reunidos somente na sala de aula (local essencial) isso força
o professor a “dividir-se” na empreitada de dar o suporte os grupos de trabalho,
e dividindo-se incorre no risco de não alcançar seus objetivos (que é fornecer
orientação e incentivo aos seus alunos).
Vejam bem, não advogo aqui um
cenário ideal próprio de países com as melhores colocações no ranking mundial
do desenvolvimento educacional mundial, tais como Finlândia, Coréia do Sul e
Canadá (sem ter que citar outros); mas entendo que nosso país e, principalmente,
o Estado do Rio de Janeiro possui condições de proporcionar um cenário
possível, que chamo de CNTP’s da educação pública.
A fim de explicar o que são as
CNTP’s da educação, faço uma apropriação
do conceito da química para o ensino do comportamento dos gases, que conhecemos
como Condições Normais de Temperatura e Pressão (CNTP). “pegamos” essa ideia e transmutamos (mais uma vez uma apropriação,
só que desta vez da ideia de Lavoisier, que visa conservação, aqui no texto, do
sentido de condição) em Condições Normais para o Trabalho do Professor (CNTP’s). Onde entende-se que para uma maior e melhor
fluidez do processo ensino-aprendizagem, na direção favorável ao
desenvolvimento dos discentes e da
atuação dos docentes, é essencial que as salas de aula possuam um número máximo
de até 3 dezenas de alunos (30 alunos no limite do tolerável; pois 31 já
configuraria a quebra de CNTP’s).
As CNTP’s da educação são um
“conceito guarda-chuva” que não só identifica os pontos que impedem que a
educação pública (no nosso caso específico, a estadual) atinja a plena
funcionalidade, ou ao menos uma satisfatória funcionalidade, desde o nível micro
até o macro; como também indica ações com potencial mitigador sobre esses mesmos
pontos de impedimento, também nos mesmos níveis.
Faço algumas ressalvas no que
tange aos problemas e soluções típicas de gestão especificamente no macro; pois
aí, nestes casos, a Teoria Crítica Marxista (uma revisitação) embasa de forma
mais analítica, acadêmica, científica e histórica aquilo que o pragmatismo do
professorado vem há tempos anunciando a sociedade. Pois sem tal embasamento
prevaleceria o tecnicismo dos burocratas, que tende a ignorar que a rede é
composta por pessoas (professores e alunos) e não somente por números que são
facilmente manipuláveis em relatórios estatísticos.
Ainda, é preocupante e lastimável
que nos tempos atuais mereçam mais atenção os “especialistas em educação” (detentores
de currículos dourados que pululam nas mídias bombardeando a sociedade com
“seus pareceres embasados”) do que aqueles que estão na atividade fim, os docentes.
O resultado dessa situação favorece a
criação de um quadro onde a figura do professor é exposta à depreciação, ao
desrespeito e a estigmas culpabilizantes pelo baixo rendimento dos alunos e -
consequentemente - mau desempenho da rede nas avaliações externas. Enfim, um
quadro de violência contra a moral dos docentes.
“Mea culpa” ??? Fazemos todas. Pois é claro que uma rede onde
existem mais de 55 mil docentes em sala de aula, seria leviano defender que os
professores estão isentos. No entanto, creditar aos docentes a quase totalidade
da responsabilidade pelo fracasso ou o sucesso da rede é, no mínimo, uma
análise superficial, primária, imediatista e desprovida da seriedade, que é tão
necessária para se pensar (e dialogar sobre) a educação pública estadual.
Provável É que a nossa mea culpa
esteja, justamente, em estar abandonando valores fundamentais da função social
da atividade docente.
A rede É plural, e justamente por
isso que toda essa unicidade imposta (que já cooptou diretores, coordenadores e
está fazendo o mesmo com os professores) é temerosa. Reafirmo, a rede É plural. E apesar
dos problemas serem globais (no sentindo da totalidade da rede), isto não
invalida soluções locais; pois cada UE é singular e cada regional tem suas
particularidades. Portanto mais uma vez faço o reforço da necessidade de uma
maior autonomia da escola na busca de soluções que possam, inclusive, ser
partilhadas entre as unidades a fim de “quebrar” com o Paradigma da Verticalidade, de onde as soluções chegam de cima para baixo - com todas as
implicações das leis da física V =v0+a.t (outra apropriação) – descendo direto pelas
goelas dos docentes.
P.S.: Os docentes de Portugal já iniciaram um movimento organizado. Veja o link abaixo.


Nenhum comentário:
Postar um comentário
O seu comentário passará pela Moderação e Não esqueça o seu e-mail para contato!