Primeiro gostaria de colocar que a minha abordagem não é
inédita, pois já existe farto material disponível sobre o assunto. Segundo, que
não pretendo o papel de arauto do apocalipse ou da voz no deserto. No entanto,
não poderia deixar de pontuar que a discussão não tem encontrado muito espaço
entre nós docentes da rede pública estadual do Rio de Janeiro. Diante disso é
que levanto a questão.
Cabe
lembrar que a ideia sobre o assunto surgiu em Maio/2011 no post de título Sob
Brumas (link ao final do texto).
A novidade vinda da SEEDUC/RJ é o uniforme (as camisas) que
será distribuído aos alunos da rede e que, apesar da forte alegação em
contrário, irá rankear as unidades da rede a partir de indicativos visuais (cores
e símbolos) diferenciados.
“(...) que garante
uniformes diferentes para as escolas que se destacarem durante o ano letivo.”
“O Governo do Estado
irá escolher os colégios que terão o título de UPE através da lista de
estudantes aprovados e reprovados e do índice de desempenho, calculado através
da avaliação do Saerj. A ideia é estimular as escolas da rede.”
Após a leitura dos fragmentos acima percebemos que os
uniformes servirão como um indicador publicitário da posição alcançada pela
escola dentro dos índices da SEEDUC/RJ.
E qual o mal nisso ? Ora, no meu entender é o primeiro
caminho para justificar medidas mais duras contra as unidades escolares que não
ficarem bem ranKeadas e, em um segundo momento, contra o modelo de escola
pública.
Explicando. Contra a unidade escolar ações mais severas
seriam medidas que variariam desde a redução do número de turmas; de turnos;
exoneração de diretores até o remanejamento de professores. Porque uma coisa
leva à outra, pois se há uma redução no número de turmas ou até de turnos,
consequentemente ocorrerá remanejamento de professores e remanejamento de professor
é quase sempre um transtorno, pois ele fica à mercê da regional e da
oportunidade surgida no quadro geral de horários das escolas da área (regional
em que está lotado). E mesmo que o remanejamento ocorra ao final do ano letivo,
ele (o professor) chegará à uma nova unidade como um novato na escolha das
turmas e horários – sem falar no estigma de ter vindo de uma unidade de baixo
desempenho.
Outro mal na redução das turmas e turnos atinge diretamente o
volume de recursos destinados à escola, e com isso o gestor passará certamente
por dificuldades que tendem a crescer, pois nada garante que a escola saia
dessa espiral descendente – baixos resultados, eliminação de turmas e turnos,
perda de professores, perda de recursos.
Quanto à exoneração de diretores, ela já está acontecendo e
tende a aumentar principalmente porque a SEEDUC/RJ necessita que todos os
gestores tenham passado pelo curso de “lavagem cerebral, insensibilidade e
subserviência total”, que é ministrado aos “novos diretores”.
No que tange ao 2º momento das ações mais severas por parte
do governo estadual, acreditamos que a ideia seja buscar uma justificativa
plausível junto a opinião pública – é claro contando com todo o suporte da mídia jornalística.
Mas como assim?
Bom, uma vez que a escola não atinja os níveis esperados no
ranking da SEEDUC/RJ – já vimos acima o círculo vicioso que é gerado – a
SEEDUC/RJ “etiquetará” essa escola com um uniforme que estigmatizará a unidade,
e todo o corpo escolar, abrindo uma brecha para que o poder público – na pele
da SEEDUC/RJ – justifique qualquer medida em prol da boa gestão do erário
público. Ou seja, parar de investir em unidades escolares que não atinjam as
metas mínimas impostas pelo órgão gestor da educação estadual.
Sim, é isso mesmo. A escola seria fechada, deixando de
pertencer à rede estadual pública podendo ser transformada em uma escola
Charter, o que - na opinião do blog - É O VERDADEIRO INTERESSE do governo
estadual, a flexibilização do modelo de
escola pública.
Ligando os pontos.
No ano de 2004, o governo federal sancionou as chamadas
Parcerias Público Privadas (PPP’s) o que permite ao setor privado explorar
determinados serviços por meio de parcerias com o poder público. Não é uma
simples terceirização; pois estas se deram no contexto dos anos 90. A questão
tratada pelas PPP’s envolvem cifras de dezenas de milhões (gestão de áreas
ambientais, estradas, penitenciárias, transportes...), e a ideia de que o poder
público continuaria atuando na área; o que é totalmente diferente da simples
terceirização, onde o poder público passa; concede; aliena (ou abandona) a
terceiros a gestão; atuação e manutenção de uma determinada área ou setor, geralmente
área ou setor não considerado como dever constitucional do estado.
No caso especifico da educação, a “janela de oportunidades”
surgida com as PPP´s está no Modelo de Escola Charter. A escola Charter é uma realidade em vários países (EUA, Reino Unido,
Chile, Peru...), e por esse modelo de
escola a gestão de toda a unidade, bem como a escolha da filosofia e
metodologia de ensino, escolha do corpo docente e forma de admissão ao corpo
discente é de responsabilidade compartilhada (público-privada) ou só privada. A
escola Charter tem como um dos seus compromissos atingir as metas de rendimento
(e preferencialmente superá-las) estabelecidas pelo órgão gestor da educação (governo)
nas avaliações externas.
Pois bem, o modelo de escolas Charter está pronto para ser
implantado na rede estadual graças à experiência da Fundação Itaú, Fundação
Bradesco e Fundação Roberto Marinho – esta última já É uma parceira no chamado
Projeto Autonomia (Telessala); a segunda citada pertence ao banco que detêm a
conta de pagamento do funcionalismo estadual e a primeira promoveu a difusão do
modelo Charter como alternativa à crise no ensino básico nacional.
No entanto, quando se tenta criar um nexo nessa relação
(GIDE-UPE-PPP’s-ESCOLA CHARTER) três grandes questões surgem como obstáculos – prefiro
este termo a impedimentos, pois obstáculos são mais fáceis de serem removidos –
a saber : a obrigação constitucional do poder público de prover a educação; o
vínculo trabalhista dos docentes (estatutário) e a opinião pública.
A obrigação legal do Estado.
Sabemos que é dever do Estado prover a educação e que seria
muito difícil mudar isso na constituição (talvez nem tanto, não é ?). Então,
uma vez implantadas as escolas Charter na rede, o estado permaneceria como
“dono” do imóvel (o prédio da escola) e cederia a sua administração pelo
mecanismo da PPP’s; os alunos receberiam bolsas de estudos (R$!!) para acessar
ao corpo discente daquela unidade Charter, e bingo !!! Resolvido o problema da
obrigação constitucional, pois sabemos que já existe uma lei que garante o
custeio, pelo poder executivo, dos estudos em rede privada ao(s) aluno(s) que,
no seu devido tempo, não conseguiu vaga na rede pública – olha a verba
circulando !!!!!
O vínculo do docente.
Quanto ao vínculo trabalhista dos professores (aliás, cabe
aqui um adendo, esse assunto já vinha sendo tratado com alguns colegas do grupo
mais crítico de uma escola onde eu lecionava, e na ocasião não conseguíamos
enxergar como se daria essa situação. Por isso na época foi publicado o post Sob
Brumas), a situação vislumbrada pelo blog é a mesma que ocorreu em Nova Iorque após a
reforma do ensino realizada por lá (li em publicação especifica sobre educação
e tive acesso a um material produzido pela Fundação Itaú). Os professores das
escolas fechadas ou transformadas em Charter seriam selecionados mediante avaliação
dos seus históricos de participação na busca das metas e, pelos resultados
obtidos pelas suas turmas nas avaliações externas, a fim de reduzir “danos
colaterais” (avaliar por disciplina é uma das formas de identificar quem rende
menos; por isso o saerjinho agora avaliará também outras disciplinas) .
Aqueles docentes pior “classificados” seriam colocados à
disposição das regionais, onde passariam por CAPACITAÇÕES e RECICLAGENS.
Esperando assim que, gradualmente, o número de professores em desacordo com a
nova proposta para a educação e ensino se reduza. É claro que nesse meio tempo
muita gente ia pedir aposentadoria, outros iriam sair para outras áreas, outros
cederiam devido às necessidades pessoais e/ou psicológicas, restando apenas
certo quantitativo (previsto por eles) que permaneceria no “limbo”; pois por
mais que esse professor “desarmônico” fosse recolocado em sala de aula, a
dinâmica nova das relações no trabalho (gestor da escola X professor) não
permitirá a sua permanecia por muito tempo nas unidades escolares, sendo elas
Charter ou não – lembrando que somente as “piores escolas” se tornariam
Charter, pois as “melhores escolas” já estariam funcionando em sincronia (em
harmonia) com as novas diretrizes do governo.
Além do mais, é muito provável que a quase totalidade dos
mais de 51 mil professores em efetiva regência na rede sejam “levados” a integrar-se
ao que está sendo entendido como “valorização da educação” pelo governo do
Estado do Rio de Janeiro. Principalmente com as constantes publicações em D.O.
visando enquadrar as posturas do docente, o que abre a possibilidade da
instauração de sindicâncias e suas consequências administrativas (advertências,
suspensões e até exonerações). A sindicância aparece como mais um instrumento
coercitivo implantado na filosofia “ou você faz ou pede para sair”.
A opinião pública
A imagem do professor no inconsciente coletivo da população é
de alguém avesso ao trabalho e que faz greve para prejudicar os alunos (como se
fosse uma birra de criança). Também, a parte mais abastada da população enxerga
o professor como um desqualificado e militante sindical avesso a mudanças
e que não ensina os valores burgueses à
classe menos favorecida. Assim, qualquer iniciativa do governo que venha
sinalizar com possíveis (mas não prováveis) melhorias na educação estadual no
ranking nacional serão bem aceitas, até porque o governo do Estado tem nos
meios de comunicação um importante aliado na realização dos seus ditames. Vale
o ditado : “Quem controla aquilo que é lido, ouvido e assistido, controla o que é pensado nas ruas”.
Resumo da ópera, caminhamos com passos largos para uma
flexibilização no modelo de escola pública. Cabe a reflexão sobre quais as implicações
disso na vida do docente da rede e, principalmente, dos alunos que certamente
serão estigmatizados com o novo uniforme qualificador da Unidade Pública de
Ensino (UPE).
Finalizando,
apresento um modelo Charter que já funciona bem pertinho de você, e também três referências para leitura.
http://ww2.itau.com.br/itausocial2/pdf/reforma_educacional_ny.pdf
http://claudio-santos.blogspot.com.br/2011/05/sob-brumas.html
http://claudio-santos.blogspot.com.br/2011/05/sob-brumas.html
Parece que estamos revivendo os turbulentos anos de exceção, guardadas as proporções. Os canais de negociação com o Leviatã tupiniquim estão escassos senão extintos. O governador sumiu da mídia como num toque de mágica (ou de caixa?). Estamos sem perdendo terreno, como nunca após a redemocratização. Nada que se diga ecoa. Para piorar a situação, os intelectuais e medalhões estão morrendo, se aposentando ou em estado de greve. Não podemos deixar isso acontecer...estamos sendo conduzidos por um HOMEM SEM EXPRESSÃO. Nunca, na História deste país, um ASNO comandou um estado, cujas características culturais e políticas, colocavam em litígio o embate ideológico, ainda que tacitamente. É preciso identificar com nitidez as referidas forças e os tentáculos que vem "comprando o juízo crítico da realidade", sobretudo da juventude, e o que é pior, de alguns personalidades que deveriam forjar uma nova identidade social na população carioca e fluminense. Somente a Educação poderia resgatar tal memoria, aparentemente obnubilada pela "calmaria" dos gabinetes e seções da burocracia de Estado. As elites, com apoio das mídias, privatizaram as consciências e apropriaram-se da memória popular de uma história de resistência e coragem, aqui na capital cultural do Brasil, como diria o velho maragato Brizola "sem dar um tiro". Asta la vista!
ResponderExcluirOlá professor !!
ExcluirÉ uma honra e uma satisfação imensa recebê-lo por aqui.
Realmente, a reflexão está fora de moda. Aliás vivemos um período de inversão de valores e consequentemente da falta de atitude.
Mas nós não padeceremos desse mal; pois a percepção nós temos e o espaço está aberto para o exercício inerente da atividade docente.
Forte abraço, volte sempre e desde já agradeço a difusão.