

Às vésperas do carnaval de 2011, o Brasil amanheceu "chocado" com a notícia de um incêndio nos galpões da cidade do samba (local onde as escolas de samba do grupo especial produzem e armazenam as fantasias e demais apetrechos para o ponto alto do carnaval carioca, o desfile na marquês de sapucaí).
Felizmente não houve vítima fatal; mas a pergunta que não queria calar era: "O carnaval 2011 no RJ resistiria as queimaduras ou sucumbiria vitimado pelas chamas?"
Autoridades, artistas e analistas ocuparam os espaços na mídia lamentando, criticando e exortando o mundo do carnaval (na verdade indústria do carnaval) a superar mais esse obstáculo. Assim, aos poucos a população foi sendo conduzida de uma tragédia real (chuvas na região serrana do estado, que vitimou centenas de pessoas) para uma tragédia providencial. O incêndio consternou e mobilizou opinião pública não mais em favor do luto; mas sim em favor da luta, da garra, da superação, ...da festa.
Guardadas as devidas proporções; mas NÃO as coincidências, tanto lá como cá as tragédias serviram para a aquisição de um pleno apoio da esmagadora maioria da opinião pública (atônita, chocada e já fragilizada emocionalmente) e uma "justificação" para que fosse feito o necessário (novamente peço ressalvas nas proporções) a fim de que fosse garantido o estilo de vida local. Lá, a liberdade e cá, a felicidade.
Sejamos sinceros, já se podia ouvir aqui, ali e acolá questionamentos sobre se seria moralmente viável a realização dos desfiles, diante da imensa tragédia que se abateu sobre o estado do Rio de Janeiro (centenas de mortes e destruição de localidades inteiras). Não se questionava a realização do carnaval em si, porque seria impossível e até - de certa forma - exagerado; mas sim do megaevento midiático, turístico e comercial que se tornou o carnaval carioca personificado no desfile na passarela do samba (sambódromo).
Então, acredito apenas que no final das contas, a única vítima fatal do incêndio foi a nossa dignidade como seres humanos e cidadãos; pois somos capazes de lançar alguns milhares nas ruas buscando um record no guiness book (galo da madrugada e cordão da bola preta), e incapazes (ou nos conduzem a essa incapacidade) de lançar, também, alguns milhares reivindicando melhor educação, saúde, moradia, transporte, mais ética na política, menores salários para os legisladores, juízes e governantes.
Enfim, parafraseando alguém que não recordo (mas que expressou tão bem o quanto nosso país é complicado): "O Brasil Não é um país para Amadores".
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