sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Mais um artigo para conhecimento de vocês.

Zumbi, navio negreiro, trem cheio, educação pública depauperada, cotas, etc.
Olá caro leitor, tudo bem? Talvez você esteja um pouco surpreso com esse início de artigo, mas a informalidade se justifica. A informalidade, normalmente, denota intimidade, amizade e admiração entre outras sensações ou sentimentos que permeiam uma relação entre duas ou mais pessoas. Então, já que estamos íntimos, vamos falar um pouco sobre a importância do Dia da Consciência Negra?

O 20 de novembro nasceu com a intenção (entre outras é claro) de fornecer ao negro brasileiro a oportunidade de resgatar sua auto-estima, enquanto etnia formadora da nação brasileira. Pois, a vinda em navios negreiros e os 300 anos de escravidão negra no Brasil deixaram seqüelas que são vistas, sentidas e percebidas até nos dias de hoje. Os 300 anos de escravidão provocaram naqueles negros (e isso se refletiu nas gerações descendentes), a idéia de que eles seriam inferiores, que de nada serviam, foi lhes negada sistematicamente a condição de humano, de gente. Introjetaram um dogma, o da inferioridade e é esse dogma que explica certa introspecção, receio e até mesmo medo de ousar, de ser e se orgulhar. Talvez tenha sido esta introspecção o mecanismo de defesa criado para evitar açoites, pois se me calo e obedeço não sofro. Mas esse mecanismo de defesa na nossa atualidade, não serve mais; hoje vale a desinibição, a auto-afirmação.

Não falo de uma auto-afirmação com base no rancor, na contenda com as outras etnias (a saber: branca e indígena), mas no sentindo de satisfação de uma constatação: o dogma da inferioridade não perdurou, não colou. Satisfação da constatação que o dogma estava errado, que não há mais correntes, açoites ou necessidade de estar submisso psicologicamente.

Na verdade, se depois de 300 anos de escravidão negra a sociedade, realmente, tivesse incorporado o negro como cidadão, não haveria a necessidade deste dia. Dia 20 de novembro poderia ser um feriado cívico comum, homenageando um vulto da história do nosso país. Mas como faz somente 119 anos que a escravidão, legal, foi abolida, e a presença do negro ainda não é refletida na sociedade em sua totalidade. Daremos vivas e comemoraremos. Viva ao dia de Zumbi!!!! Viva ao Dia da Consciência Negra!!!!

Quando digo que a presença do negro ainda não se reflete em totalidade na sociedade brasileira, quero dizer o seguinte: mesmo que inconscientemente, a sociedade continua com os padrões eurocêntricos da época da escravidão. Quando o belo, o bom e o confiável passavam pela tonalidade da cútis. Os exemplos são vários e vão desde simples brinquedos aos modelos que anunciam produtos na televisão. Mas, espere aí amigo articulista... Quem contrata tem o direito de escolher quem vai apresentar o produto ou serviço na televisão. Concordo com você. Só que a questão não é quem ele vai contratar, e sim a quem ele vai oferecer. E ele vai oferecer para a sociedade; ou você acha que somente na casa de branco se come margarina? Só brancos escovam os dentes; só brancos têm conta em banco; só brancos têm carro. Pense um pouco, se ele vai oferecer para a sociedade, porque então não representar a sociedade como ela é, com famílias brancas, negras, mulatas, mamelucas, indígenas.

Se você compreendeu, agora você já pode me corrigir dizendo: Ora amigo articulista, os comerciais refletem a visão que os anunciantes têm de quem forma a sociedade. Então, a partir do nosso consenso temos uma questão. Como mudar esse estado das coisas? Hora do meu gancho... A resposta está na educação. É a educação que vai possibilitar ao negro se reconhecer como membro de uma sociedade representada nos comerciais e anúncios da mídia, se transformando de simples consumidor em um cidadão que consome; que tem carro, que é gerente de banco, piloto de avião, que também come margarina, que também escova os dentes, etc.

Ainda sobre a educação, faz uns poucos anos que a política de cotas no ensino superior público vêm sendo executada, e a sociedade está cindida quanto às cotas; uns são radicalmente favoráveis; outros também radicalmente contrários; outros são a favor; outros são contra; para alguns tanto faz, e uns não estão nem aí para as cotas. Sou favorável e digo por quê.

Sou a favor das cotas como instrumento para tentar, repito, tentar corrigir o máximo que for possível a perversão causada pela não inclusão do negro como cidadão desde a abolição (são 119 anos). Não como medida de compensação; mas como correção. Sendo medida de correção ela deve, na minha singela opinião, ter vida curta. Ou seja, ela deve durar o tempo de uma ou duas gerações. Sou a favor porque acredito que a universidade deve ser a representação, em menor escala, da sociedade em que ela está inserida; e no caso da nossa sociedade, não creio que ela seja 80% branca e 20% negra, mestiça ou indígena. Sou a favor porque não gostaria de ter como única referência de representação fiel da sociedade a população prisional. Onde 80% dos detentos são negros e 20% são brancos, mestiços ou indígenas. Sou a favor porque não gostaria de ter como única referência de representação fiel da sociedade, a imagem de pessoas saindo de um trem lotado, onde 49% delas são negras, outras 49% são brancas e os 2% restantes são indígenas ou mestiços. Sou a favor porque não gostaria que a tragédia de Lima Barreto tornasse a acontecer. Sou a favor porque graças à celeuma criada com a política de cotas, hoje já se fala em cotas para alunos oriundos de escolas públicas e na melhoria das condições da escola pública para melhor capacitar ao aluno concluinte do ensino médio. Isso significa que há um verdadeiro debate a cerca das condições da educação básica pública. Sim, porque é ela que garante o acesso à universidade.

Talvez a criação desse debate (sobre a melhoria da escola pública) tenha sido o fim (mesmo que involuntário) mais nobre da política de cotas na sociedade brasileira; pois a educação básica pública é para todos e é acessível a todas as etnias.


Foi somente a partir da implantação das cotas, que a depauperada condição dos alunos oriundos de depauperadas instituições públicas de ensino começou a ser notada. Porque antes estava tudo muito bem, tudo muito bom. 80% dos vestibulandos ou vinham de boas (para não dizer excelentes) escolas ou cursos particulares; enquanto os outros 20% vinham de escolas públicas, mas também de cursinhos só que não tão bons (salvo raríssimas exceções). Só que surgiu essa tal de cota, e então se começou a falar em democracia, igualdade de condição, que o acesso à universidade pública é direito de todos, que o correto seria cota para aluno oriundo do ensino público, que as cotas promovem o racismo ao inverso (ué?! então só seria permitido o racismo "certo"??!!?!?!?),etc. Argumentos e argumentos que antes da política de cotas jamais, e repito o jamais, eram lembrados ou utilizados como são hoje em dia nos discursos inflamados contra as cotas.

Talvez agora se encontre força de vontade política para promover a tão necessária valorização do ensino básico público, porque sem essa valorização não há igualdade de condições, não há democracia, não há como a maioria dos alunos oriundos de escolas públicas, sendo negros ou não, terem como garantido seu acesso à universidade pública. Porque o que se apresenta é apenas a igualdade de oportunidade; mas não a igualdade de condições. Então, se não houver essa mudança, os alunos concluintes do ensino médio público continuarão sem a possibilidade de ingressar na universidade pública.

Portanto, bendita hora em que essa política de cotas chegou, só assim a educação básica pública (de acesso universal), e que pode garantir a igualdade de condições no acesso ao ensino superior, entrou na pauta de discussão política. Por isso meu amigo leitor, comemorar o 20 de novembro faz sentido para mim; ser a favor das cotas faz sentindo para mim. Tudo isso sem paranóia, sem apologia da intolerância racial, sem qualquer tipo de idealização da figura do negro. Espero que possa fazer sentido para você; ou mesmo que não faça, que pelo menos você passe a encarar a situação do brasileiro negro com uma percepção mais aguçada.

OBS.: As porcentagens apresentadas no artigo não refletem a exatidão dos respectivos cenários; mas servem para ilustrar, somente, que a maioria de membros daquele cenário citado pertence à etnia que apresenta a maior porcentagem no texto.
Líquido e certo é que a população brasileira é de 184 milhões, desses 49,9 são de brancos; 49,5 são de negros ou mestiços; 0,7% de indígenas ou amarelos. Ou seja, no mínimo tanto as universidades quanto os presídios refletiriam, corretamente, a sociedade em que estão inseridos se a proporção fosse semelhante à apresentada pelo IBGE.

Um comentário:

  1. Amigo Poeta, vc tem divulgado seu blog?
    Tem indicado aos seus alunos?
    Penso que este seria um excelente instrumento para iniciarmos esta tão sonhada mudança de comportamento social.
    Os recursos tecnológicos estão aí como aliados ao processo educacional.
    É preciso provocar o debate em nossa escola!
    Sugiro incentivá-los a comentar suas postagens, a buscar através da pesquisa, entender sobre o que você vem postando.
    Sou sua fã! Compartilho do mesmo sonho por uma Educação Pública de qualidade!
    Sucesso sempre!
    Divulgue-se!

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